A era das desculpas acabou: para sobreviver, a indústria da moda deve ser sustentável

Atualizado: Fev 12




As primeiras análises de 2021 sobre os efeitos que a pandemia do Covid-19 deixou em toda a indústria da moda, começam a ser publicadas pelas revistas, órgãos oficiais e pelas empresas de consultoria. Embora exista unanimidade ao afirmar que digitalização foi a palavra de 2020, o termo sustentabilidade amadureceu. Em meio a esse abalo tão grande sofrido por toda a cadeia, vozes sustentáveis conseguiram penetrar os meios digitais e principalmente nas redes: mais rápidos, mais econômicos, mais acessíveis e muito mais disponíveis que outros veículos de comunicação e promoção de ideias sobre moda.


Diante dessa nova realidade, podemos esperar então que comece uma corrida acelerada para que os negócios da moda definitivamente se engajem nessa jornada. Podemos dizer que os desafios são os de sempre, mas hoje as pessoas não são as mesmas de uma década atrás, principalmente em virtude da disponibilidade de informação. A sustentabilidade não é apenas utópica nem um valor do futuro, é um valor fundamental do negócio, assim como grade de tamanhos, qualidade e criatividade, coisas que ninguém mais discute como essenciais para as marcas e empresas. Se você quiser sobreviver, terá que se informar e transformar todos os dias.


Por essa razão, é fundamental pensar quais são os desafios que profissionais e empresas enfrentam nessa trajetória rumo à sustentabilidade possível. Sim, como já destacamos anteriormente, a sustentabilidade é um processo e não um estado e, conforme nosso conhecimento avança, vamos revisando e aprimorando nossas ações. Os principais argumentos (ou desculpas) usadas para se manter afastado deste propósito, são totalmente "fora de moda":


O custo da matéria-prima





Todas as pessoas envolvidas na cadeia sabem que a moda sustentável depende em primeiro lugar da seleção de matérias-primas adequadas. Também é de conhecimento geral que o custo da matéria-prima impacta de maneira importante no preço final de um produto e, diante da competitividade do setor, em alguns mercados, alguns poucos reais (R$) no preço final podem representar que aquele produto não encontrará seu consumidor. Assim, escolher matérias-primas mais baratas e menos sustentáveis, muitas vezes é uma prática corriqueira e aceita baixo a justificativa do preço e da concorrência.


O que podemos fazer sobre isso? Bom, muitas coisas, sendo que a primeira, obviamente, é a própria seleção da matéria-prima. Alguns selos de adequação a alguns parâmetros de sustentabilidade já estão sendo usados fortemente e até exigidos em determinados mercados e, provavelmente, esse é o melhor caminho pra começar. Por outro lado, podemos economizar no quesito matéria-prima criando produtos mais inteligentes e coleções mais eficientes que minimizem desperdícios, melhorem nosso poder de negociação, sejam mais duradouros etc. Além disso, é possível implementar processos de design que diminuam o impacto desses custos mais altos na origem, bem como atribuir valor simbólico às nossas melhores escolhas, fazendo com que o consumidor pense menos que é possível encontrar uma peça igual muito mais barata.


O valor da mão-de-obra





Não há nada mais insustentável para a sociedade do que uma mão-de-obra desvalorizada. Na moda isso começa na produção e termina nos desfiles: costureiras mal pagas, estágios sem remuneração, salários de assistência para profissionais que assumem responsabilidade de gerência, profissionais multitarefas, da criação do produto ao post do instagram. Num setor onde grande parte da mão de obra é feminina, essa restrição é ainda maior, pois, em geral, mulheres já ganham menos, ainda que estejamos mudando isso.


Com certeza, para virar este jogo é necessário legitimar a moda como profissão. Não só quem cria, mas também quem costura, passa, embala, arruma a loja etc. Para algumas posições a formação deveria ser uma exigência subentendida, evitando que se perpetue a ideia de que trabalhar com moda é fácil. Esse comportamento prejudica.e enfraquece a formação em moda.


O transporte de mercadorias




Pode parecer fora de escopo mas sim, o transporte impacta demais a sustentabilidade da moda. É um setor muito "deslocalizado", pois a criação pode ser feita num lugar, a matéria-prima chegar de outro, a produção ser realizada em outro e, por fim, a venda acontecer em milhares de pontos no mundo e, ainda, retornar para nossa casa por meio do e-commerce. Essa pulverização do processo, além de custar ao ambiente, custa às localidades também pois, não esqueçamos, todo esse trânsito busca mão de obra, matéria-prima e oportunidades de negócios mais baratas.

Encontrar soluções governamentais de incentivo à produção e ao comércio local, é a chave para a reversão desse processo.


Respeito pelas diferentes culturas





Dentro dos desafios da sustentabilidade, os aspectos sociais muitas vezes são negligenciados. Eles atravessam a mão de obra e o consumo, parecem invisíveis, mas trazem efeitos negativos de longo prazo. Começa, sem dúvida, na exploração de países e localidades em desenvolvimento, mas também se materializa na apropriação cultural, no uso de ideias e referências sem qualquer retorno financeiro ou humano, na disseminação de imagens de moda excludentes e cruéis, que incentivam a violência e a negação. O único antídoto contra essas práticas está no conhecimento, para que possamos respeitar e propagar o respeito, principalmente, por operárias, artesãs e consumidoras de roupas e moda em todo o mundo.


Mentalidade do consumidor





Ainda que muitas vezes se diga que o consumidor poderia mudar esse panorama, sabemos que não é tão fácil assim. Por mais que ele tenha a escolha, muitas vezes ele não possui a informação, pois a quantidade de falsas informações sobre a adoção de práticas sustentáveis é tão grande que não existe nenhuma certeza. Assim, toda a responsabilidade sobre a informação e a verificação, sem dúvida, deveria retornar para o setor e para os organismos de controle.


Em segundo lugar, desde os anos 1950 estamos nos acostumando, numa velocidade cada vez mais acelerada, à ideia de que a roupa é descartável. Revistas, desfiles, fast-fashion, incentivos ao consumo etc., transformaram roupas em bens não-duráveis. Isso é tão arraigado culturalmente que é difícil convencer alguém a usar roupa repetida em algumas ocasiões ou de que não deve comprar só porque é barato ou está em promoção.


Se as pessoas se espantam quanto um produto é caro demais - um par de jeans por R$ 2.000,00 -, mas não se chocam quando é barato de mais - as mesmas calças por R$ 14,99 -, algo está errado.

Ensinar a consumir, mostrando de onde tudo vem e para onde tudo vai e quantas pessoas são afetadas por esse processo, é o passo número 1 para uma indústria de moda sustentável e, talvez, o maior de todos os desafios.





Se você quer saber mais sobre os desafios da sustentabilidade na moda e entender como superá-los, participe de nossa conversa com Laura Fernandes, dia 27 de janeiro. Inscrições aqui.




Nota: nossa análise foi realizada com base em publicações da agenda de sustentabilidade na moda e, portando, são diversas as autorias. Frases e reflexões de outras fontes foram trazidas aqui simplificadas e sem o crédito individual, mas elas representam o que acreditamos.


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