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Tricô: sua história, mitos e porquê você deve investir nessa técnica

Atualizado: 29 de out. de 2021


Gabriela Hearst Spring 2022 Ready-to-Wear


Um par de agulhas, alguns novelos e infinitas possibilidades. É assim que se começa o trabalho artesanal com tricô, que durante a pandemia, também virou válvula de escape e autocuidado para diversas pessoas que se viram presas em casa devido ao confinamento. A criatividade incrementa a receita, mas hoje em dia são tantas inspirações e modelos prontos para copiar que não se vê mais como imprescindível.


Apesar do tricô estar dando as caras à Geração Z só nos últimos anos, essa é uma prática milenar, produzida há séculos de diversas maneiras. Muito além de um “passatempo de vó”, o ponto a ponto vem ganhando mais adeptos e passarelas para desfilar. E você, sabe tricotar?


Entre a nobreza, as trincheiras e a alta-costura


O tricô, que consiste de modo geral, na técnica de entrelaçar fios neles mesmos para formar um tecido, é elaborada com fios manuseados com o uso de agulhas para tramá-los. A técnica pode ter sido vista pela primeira vez no Egito, onde arqueólogos acharam um par de meias feitas de fibra que datavam de aproximadamente 1200 d.C. A padronagem era bem avançada, então conclui-se que a técnica já estava se aperfeiçoando há muito tempo. Assim, constata-se de que a prática do tricô tenha surgido no Oriente Médio. A única certeza é de que homens, usando pedaços de madeira ou ossos, praticavam a tecelagem enquanto as mulheres produziam o fio com a roca de fiar.


Na literatura, também temos a presença do tricô desde a Antiguidade. Na obra Odisseia, do poeta Homero, que data de aproximadamente entre os séculos IX a VII a.C, a personagem Penélope passava noites na tarefa de tecer e desfazer tramas enquanto esperava seu amado Ulisses voltar da guerra de Tróia. A personagem nunca terminava seu trabalho, pois uma vez que fizesse, teria que se casar com um homem que seu pai desejava. Acredita-se que a personagem estava trabalhando com o tricô, já que a malha é o único tecido que é possível “destramá-lo”,


Em 1589, o inglês Willian Lee foi responsável por inventar a primeira máquina de tricô, que atualmente ainda serve de inspiração para diversos teares mais sofisticados. O acontecimento teve como consequência o aumento e popularização da produção das peças feitas de lã, mas, na Europa, as peças tricotadas manual ou industrialmente eram restritas ao alto escalão social.


Durante toda sua história na moda, as peças artesanais perderam e ganharam força se alinhando ao momento em que a sociedade se encontrava. Mas foi durante a revolução industrial, que elas foram desvalorizadas e ganharam um de seus maiores estigmas: um simples passatempo feminino.


O que muita gente não sabe é que, durante as guerras, principalmente nos Estados Unidos, o tricô foi usado como um meio de esconder mensagens de espiões. O estado americano realizou diversas campanhas incentivando os homens e mulheres a tricotar peças para seus maridos, amigos e parentes que estavam nas trincheiras e usavam meias e toucas para se aquecer. De um item restrito às nobrezas a um ato patriótico no mundo durante as guerras, a presença humana é o fator chave para que a técnica permaneça viva e muito atual.



Na moda, o tricô aparece como objeto de desejo em 1927, quando a italiana Elsa Schiaparelli lança um suéter modernista tricotado a mão por imigrantes armênios, com um trompe-l’oeil de nó de marinheiro. A peça alavancou o início da carreira da estilista, que hoje em dia é o nome de uma das mais antigas e importantes casas de alta costura.


Sonia Rykiel, rainha do tricô e responsável por levar definitivamente os suéteres ao alto escalão da moda, projetou uma estética elegante, sofisticada e jovem. As peças com fundos primários e listras coloridas logo se tornaram marca registrada da estilista. Inspirada em Coco Chanel, que alguns anos antes também lançou cardigans e suéteres com referências esportivas e jovens, Rykiel foi uma das primeiras estilistas francesas com grande distribuição comercial nos Estados Unidos.


Sonia Rykiel, 1989


Nada tão do-it-yourself quanto tricotar


Durante os anos 1960, o boom das revistas de tricô popularizaram de vez a técnica e não havia mais desculpas para quem ainda não sabia fazer. As “receitas”, assim como na culinária, vinham com todas as informações necessárias: modelagem, tipos e preços de fios, dicas sobre qual agulha usar, como fazer os pontos, além de centenas de inspirações da “última moda”, que na maioria das vezes vinham de Paris. Confeccionar sua peça no conforto de sua casa era a nova moda, que além de prática, se tornou um meio de confraternização entre mulheres, que formavam seus grupos de tricô e compartilhavam receitas, inspirações e novas técnicas.


A popularização e a facilidade desses trabalhos artesanais - além do tricô, o crochê e o corte e costura - fez com que houvesse um aumento da demanda por “trabalhos femininos”. Eles podiam ter duas finalidades: o simples trabalho doméstico, “do lar”, ou uma forma de realizar-se profissionalmente, tornando-se operária de fábrica ou costureira prêt-à-porter. Além da independência financeira, esses trabalhos foram essenciais para a inserção da mulher em espaços públicos e ambientes sociais que antes eram exclusivos à figura masculina.


Com fácil manuseio, armazenamento e preço acessível, o tricô atrai um público diverso, desde jovens à pessoas mais velhas buscando um passatempo, até uma alternativa de fonte de renda, uma forma de aliviar a ansiedade ou de expressar sua criatividade e amor, fazendo coisas lindas e eternas para quem a gente ama.


Para os leitores da Geração Z, no último ano uma receita de tricô bombou quando o estilista JW Anderson, diretor criativo de sua marca homônima e da grife espanhola Loewe, divulgou o padrão e tutorial para os fãs reproduzirem um suéter de sua marca. A peça em questão tinha sido usada pelo cantor Harry Styles em alguns shows e se tornou viral nas redes sociais.


Harry Styles usando o famoso cardigan JW Anderson


Desmistificando...


Contudo, apesar de estarmos vivendo esse movimento de valorização dos trabalhos manuais, foi a partir dos anos 1980 e 1990 que o tricô ganhou alguns estigmas que vivem com a prática até hoje. Durante a ascensão do prêt-à-porter e a massificação da produção têxtil, um fluxo grande de tricô industrial barato que não dava importância ao design do produto vindo de países com mão de obra não especializada fez com que a população relacionasse o produto a uma roupa ultrapassada, não elegante e com “cara de vó”.


Hoje em dia, com a valorização da mão de obra humana, especializada, exclusiva e slow, o tricô se torna presente não só em grandes passarelas, mas também em novas marcas nacionais e internacionais que buscam se conectar com o consumidor e buscam alternativas mais sustentáveis e éticas.


Nas últimas semanas, durante a semana de moda de Nova Iorque, a técnica apareceu mais do que nunca, e mostrou que ela vai além de uma peça do inverno, mas é versátil e pode se adaptar à diversas estações, momentos e épocas.


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